sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Dupla vista ou Visão Espiritual


A vista espiritual vulgarmente chamada dupla vista ou segunda vista, lucidez, clarividência, ou, enfim, telestesia e, agora, criptestesia, é um fenômeno menos raro do que geralmente se Imagina. Muitas pessoas são dotadas dessa faculdade, sem o suspeitarem; apenas o que há é que ela se acha mais ou menos desenvolvida. Facilmente se pode verificar que é estranha aos órgãos da visão, pois que se exerce, sem o concurso dos olhos, durante o sonambulismo natural ou provocado. Existe nalgumas pessoas no mais perfeito estado normal, sem o menor vestígio aparente de sono ou de estado extático. Eis o que a respeito diz Allan Kardec:

"Conhecemos em Paris uma senhora em quem a vista espiritual é permanente e tão natural quanto a vista ordinária. Ela vê sem esforço e sem concentração o caráter, os hábitos, os antecedentes de qualquer pessoa que se lhe aproxime; descreve as enfermidades e prescreve tratamentos eficazes, com mais facilidade do que muitos sonâmbulos ordinários. Basta-lhe pensar numa pessoa ausente, para que a veja e designe. Estávamos um dia em sua casa e vimos passar pela rua alguém das nossas relações e que ela jamais vira. Sem ser provocada por 'qualquer pergunta, fez dessa pessoa o mais fiel retrato moral e nos deu a seu respeito opiniões muito ponderadas.

"Contudo, essa senhora não é sonâmbula; fala do que vê, como falaria de qualquer outra coisa, sem se distrair das suas ocupações.
E' médium? Não o sabe, pois, até há bem pouco tempo, nem de nome conhecia o Espiritismo."Podemos aditar ao do Mestre o nosso testemunho. Há uma vintena de anos, demo-nos com uma Sr.a Bardeau, que gozava dessa faculdade. Descrevia personagens que viviam na província, muito longe, ao Sul, personagens que ela nunca vira e de cujos caracteres, no entanto, apresentava circunstanciados pormenores. Conservava-se, todavia, no estado ordinário, com os olhos bem abertos, conversando sobre outros assuntos, interrompendo-se de quando em quando para acrescentar alguns traços que completavam a fisionomia ou o caráter das pessoas ausentes.

Hoje, ainda conhecemos uma parteira, Sr.a Renardat, que pode ver a distância, sem estar adormecida. Tivemos disso prova inegável, porquanto descreveu com fidelidade um dos nossos tios, residente em Gray, indicou uma enfermidade que ele tinha e que os médicos ignoravam e lhe predisse a morte, sem jamais o haver conhecido. Essa senhora vê os Espíritos, como vê os vivos. Muitas ocasiões tivemos de convencer-nos, pelas afirmações dos nossos amigos, de que ela entretinha relações com almas que haviam deixado a Terra, pois fazia delas retratos muito semelhantes e a linguagem que lhes atribuía lembrava a de que usavam durante a vida terrena.
Desde há quinze anos, temos tido numerosas oportunidades de estudar a mediunidade vidente, que nem sempre se manifesta com esse cunho de constância que se nota nas narrativas acima. As mais das vezes, é fugitiva, temporária, mas, mesmo assim, nos faculta a certeza de que a crença na imortalidade não é vã ilusão do nosso espírito prevenido e sim uma realidade grandiosa, consoladora e sobejamente demonstrada.

Aliás, vamos citar bom número de experiências que demonstram ser objetiva a visão dos Espíritos, porquanto esta coincide, explicando-as, com fenômenos físicos que nos caem sob a percepção dos sentidos materiais e que toda gente pode verificar.Quando uma mesa se move e um médium vidente descreve o Espírito que sobre ela atua; quando esse médium chega a anunciar o que o Espirito vai dizer por intermédio do móvel, é despropositado imaginar-se que ele não veja realmente, uma vez que a sua predição se realiza e o Espírito dá testemunho de sua presença, exercendo ação sobre a matéria. Se quisermos refletir que, há cinquenta anos, no mundo inteiro se procede continuamente a pesquisas espíritas; que elas se processam nos mais diversos meios; que foram fiscalizadas milhares de vezes por investigadores pertencentes às classes sociais mais instruídas e, por conseguinte, menos crédulas, forçoso será considerarmos absurdo supor-se não sejam os Espíritos que produzam tais fenômenos.

É, pois, por meio de incessantes comunicações com o mundo invisível, por meio de ininterruptas relações com os habitantes do espaço, que chegamos a adquirir conhecimentos certos sobre as condições da vida de além-túmulo. Lembremo-nos de que existem mais de duzentos jornais publicados em todas as línguas que se falam no globo, que cada um prossegue isoladamente em seus trabalhos e que, malgrado a essa prodigiosa diversidade quanto às fontes de informações, o ensino geral é o mesmo, em suas partes fundamentais. Há-se de convir em que semelhante acordo é bem de molde a servir de fundamento à convicção que se gerou em cada experimentador, depois de haver estudado por si mesmo. Exponhamos, conseguintemente, sem cessar, os resultados obtidos; não nos cansemos de colocar sob as vistas do público os documentos que possuirmos e, talvez lentamente, mas com segurança, chegaremos a conseguir que penetrem nas massas estes conhecimentos indispensáveis ao progresso e à felicidade delas.

O envoltório da alma fez objeto de perseverantes estudos da parte de Allan Kardec. Ele próprio confessa que, antes de conhecer o Espiritismo, não tinha idéias especiais sobre tal assunto. Foram seus colóquios com os Espíritos que lhe deram a conhecer o corpo fluídico e lhe proporcionaram compreender o papel e a utilidade desse corpo. Concitamos os que queiram conhecer a gênese dessa descoberta a ler a Revue Spirite, de 1858 a 1869. Verão como, pouco a pouco, se foram reunindo os ensinamentos a respeito, de maneira a constituir-se uma teoria racional que explica todos os fatos, com impecável lógica.

Não podendo estender-nos demasiado sobre este ponto, limitar-nos-emos a citar uma evocação, que poderá servir de modelo a todos os investigadores que desejem verificar por si mesmos estes ensinamentos. Evocação do Doutor Glas. As perguntas eram feitas por Allan Kardec, sendo dadas pelo médium escrevente as respostas.

"P. — Fazes alguma distinção entre o teu espírito e o teu perispírito? Que diferença estabeleces entre essas duas coisas?
R. — Penso, pois que sou e tenho uma alma, como disse um filósofo. A tal respeito, nada mais sei do que ele. Quanto ao perispírito, é, como sabes, uma forma fluídica e natural. Procurar, porém, a alma é querer achar o absoluto espiritual.
P. — Crês que a faculdade de pensar reside no perispírito? Numa palavra: que alma e perispírito são uma e mesma coisa?
R. — É exatamente como se me perguntasses se o pensamento reside no nosso corpo. Um é visto, o outro se sente e concebe.
P. — Não és, então, um ser vago e indefinido, mas um ser limitado e circunscrito?
R. — Limitado, sim, porém, rápido como o pensamento.
P. — Peço determines o lugar onde aqui te achas.
R. — À tua esquerda e à direita do médium.

Nota — Allan Kardec se coloca exatamente no lugar indicado pelo Espírito.

P. — Foste obrigado a deixar o teu lugar para mo ceder?
R. — Absolutamente. Nós passamos através de tudo, como tudo passa através de nós; é o corpo espiritual.
P. — Estou, portanto, colocado em ti ?
R. — Sim.
P. — Mas, como é que não te sinto?
R. — Porque os fluidos que compõem o perispírito são muito etéreos, não suficientemente materiais para vós outros. Todavia, pela prece, pela vontade, numa palavra, pela fé, podem os fluidos tornar-se mais ponderáveis, mais materiais e sensíveis ao tato, que é o que se dá nas manifestações físicas.

Nota Suponhamos um raio de luz penetrando num lugar escuro. Podemos atravessá-lo, mergulhar nele, sem lhe alterarmos a forma, nem a natureza. Embora esse raio luminoso seja uma espécie de matéria, tão "rarificada" se acha esta, que nenhum obstáculo opõe à passagem da matéria mais compacta."
Evidentemente, a melhor maneira de chegar-se a saber se os Espíritos têm um corpo consistia em perguntar-lho. Ora, nunca, desde que se fazem evocações, alguém comprovou que os desencarnados hajam dado uma resposta negativa. Todos afirmam que o envoltório perispirítico é, para eles, tão real, quanto o nosso corpo físico o é para nós. Tem-se, pois, aí um ponto firmado pelo testemunho unânime de todos os que hão sido interrogados, o que explica e confirma as visões dos sonâmbulos e dos médiuns. Chegamos assim a uma ordem de testemunhos que fazem ressalte das concepções puramente filosóficas o perispírito, atribuindo-lhe existência positiva.


Que Jesus nos ilumine sempre!

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